04 maio 2007

Esse cartum eu fiz para ilustrar um artigo da Arca de Noé. O texto é sobre como a toxoplasmose afeta o comportamento dos ratos, que naturalmente tem aversão a gatos (pois estes são seus predadores naturais) e passam a sentir uma atração suicida depois de contaminados com a doença. (sempre desconfiei de quem gosta de gatos)

O cartum foi vetado na Arca, o editor-chefe achou ele meio pesado demais, e isso fez eu me sentir um grande cartunista.
Vou explicar por quê.

Uma vez, quando eu fazia colaboração de charges para a ZH (na página Marco Aurélio e Cia. A "cia" era o Ronaldo, o Rekern e, eventualmente, eu e mais algum colaborador) Eu fiz um desenho sobre o menino Iruan (lembram daquele que a família brasileira e a tailandesa brigavam pela guarda?) que era assim: Era um menino de rua deitado sobre uns papelões dizendo "Eu também me chamo Iruan". Acho que foi a charge com mais "opinião" que eu fiz para a Zero. Na semana seguinte, encontrei o Marco Aurélio jantando no Plaza e ele bateu nas minhas costas e disse "Bah, recebi muitos e-mails reclamando da tua charge. Parabéns! Agora tu és um grande chargista!"
Hein?!?!?!?!?!

Na época eu não entendi direito isso, mas hoje eu sei que os cartunistas se sentem valorizados quando os seus desenhos causam controversia, são proibidos e tal. Todo mundo conta da vez que o Jaguar foi demitido de um jornal por causa de um cartum sobre Jesus (aparecia ele na cruz dizendo "Hoje não, Madalena, eu tô pregado"); das mais de cem tiras do "Mad Monks" (Os Fradinhos), do Henfil, que foram vetadas pela distribuidora americana por serem obcenas e tal....
O cara aquele que recentemente desenhou a caricatura do Maomé e que causou um alvoroço mundial deve estar se sentindo o máximo!

Mas eu não sei o porquê disso. Não sei se é daquelas coisas "fale mal, mas fale de mim", ou se é uma coisa 'artística' de saber que um desenho pode ser muita coisa além de uma piada boa ou ruim, e pode gerar muita coisa além de uma risada ou não. Mas vou dar a minha opinião momentânea.

Acho que a charge e o cartum são crônicas de um tempo....embora algumas sejam atemporais..... então direi que são crônicas sobre a humanidade. E como crônica, ela tem que ter o poder de fazer rir, mas também de mostrar a verdade, mesmo que isso seja chocante ou revoltante. É engraçado que a arte deveria ser toda assim, mas não consigo enxergar essas coisas na arte contemporânea. Não consigo falar sobre o mundo e as pessoas através das "artes plásticas" assim como consigo através do Dinossauro e do Robô ou dos meus outros cartuns. E normalmente não consigo ver verdades sobre o mundo e as pessoas nos trabalhos de outros artistas plásticos assim como vejo nos trabalhos de outros cartunistas.

Lembrei agora de uma frase que o José Mojica Marins falou: "O horror não está no horror".
Mas onde ele está? Ele está em VOCÊ!!!

É isso, o que choca, o que faz rir, o que faz chorar, é a pessoa reconhecer o mundo no trabalho (seja um filme, um cartum ou uma tela). E se dar conta de que podem fazer alguma coisa com seus desenhos além de criar riso faz os cartunistas se sentirem grandes.

9 comentários:

Michael disse...

Tem um monte de coisa q eu deveria comentar sobre o comentário do Rodrigo, mas vou ficar nas importantes:

1 - O Arca não tem Editor-chefe, tem no máximo um Vice-Presidente Jr., q é o Labareda.
2 - As charges do Rodrigo são muito boas e ele fez uma "alternativa" que vai ser colocada no Arca até amanhã. Mas eu preciso dizer: essa q tá aqui é muuuuuito mais engraçada. Mesmo assim, dêem uma chegada lá e dêem uma lida no texto.
2 - Os chargistas colocam o "dedo na ferida" e a sociedade hipócrita ri mas ao mesmo tempo coloca a mão na frente da boca e diz "ai, que horror!".

Fazer o quê... a culpa é da sociedade!

Luiz Augusto disse...

GRAAAAANDE ALEJA! A tira ficou ESTROGONOFICAMENTE DUCARÁI! Gostei de mais do desenho e dos traços, mas o q eu gostei mais foi de ver o desenho mais "explícito", q pra mim é uma nova faceta do seu trabalho. Ficou perfeito! O texto tb, q trem chique! É por aí mesmo, tem q causar TUMULTO! Abração!

Luiz Augusto disse...

de+mais = demais

raquel alberti disse...

de cabeça pro inferno!!!

vovó disse...

Muito bem colocada a situação do artista como aquele que faz seu público se dar conta das coisas/situações que estão à volta e passam a ser percebidas em uma nova dimensão...

véia lôca disse...

...legal, tô gostando do papo, só tem que cuidar para não confundir alhos com bugalhos ou caralhos e achar que, só porque chocou, é arte. Lord, have mercy upon us, pois tá assim de gente ôca que tá nessa do "choquei? intão sô o mór artista!"

labareda disse...

Não entendi.
Labareda, vice-presidente júnior arca de noé, enterprise s/a ltda.

Moita disse...

Segundo a bicha-louca-Mor*, o artista não deve fazer a sua arte pensando na aceitação do público. Segundo ele (veja bem: ELE), o público nada sabe de arte. E a arte verdadeira deve causar sim um certo espanto (nisso eu concordo plenamente). E aproveitando a brecha: outro cara fodão e que muita gente não gostava era o Crumb**. É isso aí, e meus parabéns!


*Oscar Wilde;
** Precisa dizer algo????

Fabio disse...

cara, essa eh a coisa mais engraçada que já vi!!