07 agosto 2009

O Caso da Mansão de Churumelle

Estávamos lá, todos os convidados reunidos ao redor da lareira após o um belíssimo jantar (o gosto não estava lá essas coisas, mas, meu Deus, que jantar belo) na mansão de inverno do Duque de Churumelle, contando histórias, bebendo vinho e fumando charutos enquanto alguém cantava Guantanamera dançando algo próximo a um Charleston. Eu comentava com o Duque sobre a extravagância de estarmos ali no verão quando o Conde de Chatonissè interrompeu dizendo:

- Eu absolutamente não acredito em fantasmas, não importa quão fantásticas sejam as histórias que contem.

Tal afirmação deixou todos os convivas intrigados, pois ninguém havia sequer mencionado fantasmas até aquele momento. Aliás, era sabido por quase todos da proibição de contar histórias de fantasma na Mansão de Churumelle. Diz a lenda que certa vez alguém contou e aconteceu algo que ninguém lembra e, como ninguém lembra, deveria ser horrível. François Dundun então arrotou, mas logo pediu desculpas e se aquietou.

Pois enquanto todos se olhavam interrogativamente (menos o Marechal Lebeboum, que estava caido atrás do sofá, após um passo em falso na sua tentativa de dançar can-can), o Marquês de Couz-couz, que não havia falado até então, continuou calado, mas o homem que estava ao lado dele se levantou, andou até a lareira e, olhando fixamente para o fogo, disse com seu forte sotaque britânico:

- Poucos de vocês me conhecem, e podem ter um péssima impressão de mim com o que vou contar agora, mas os que me conhecem sabem que não sou de inventar histórias e dou a minha palavra de que tudo aconteceu assim.

“Certa vez, quando eu ainda era um jovem mensageiro do exército britânico, estava eu nas campanhas da África e tinha sido incumbido de trocar as cartas entre dois generais que jogavam bolinhas de papel um no outro por correspondência. Eu carregava para um lado e para o outro através do deserto cartas com as bolinhas e as jogava no destinatário conforme as instruções que me eram passadas. Já estava acostumado com o caminho, mas uma noite, sozinho no meio do deserto ouvi uma voz. Ela dizia ‘Uooooogh’! E eu me virei para....”

-Não seria “Uaaaaaaagh”? – Perguntou o Conde de Chatonissè.

-Não, naquela parte da África os fantasmas fazem “Uoooogh”. – Retrucou o homem.

-Tem certeza que não era “Uaaaaaagh”? – Voltou a indagar o Conde. – Acho “Uaaaaaagh” mais assustador.

-Tenho certeza que sim.

-Certeza que sim o quê? Que era “Uoooooogh” ou que “Uaaaaaagh” é mais assustador?

-Que era “Uoooooogh”.

-Eu acho que “Uaaaaaaagh” daria mais credibilidade ao seu fantasma. “Uoooooogh” é meio afeminado. Tente falar isso sem parecer afeminado.

-“Uoooooogh”!

-Viu! Você ficou parecendo uma coquete!

-Não fiquei!

-Ficou sim!

-Não fiquei, não!

-Ficou, ficou, ficou....

-Não, não, não....

O homem então tirou a sua casaca e partiu para cima do Conde, desferindo um direto bem no seu nariz e começando uma bagunça generalizada. Alguns brigavam violentamente, enquanto outros tentavam seguir o Marechal Lebeboum em seu can-can. Era bastante difícil discernir um grupo do outro. Tentei me desvencilhar, mas logo fui acertado com uma cadeirada e perdi a consciência, que nunca mais encontrei. No dia seguinte tive que sair para comprar uma nova. Mas o grande mistério da noite foi porque o Marquês de Couz-couz amanheceu nú no sofá com coxinhas de galinha atrás das orelhas. Até hoje não acharam as ceroulas dele e nem a minha consciência. Dizem que as duas foram vistas em Bali, usando bigodes falsos. Realmente um caso intrigante. Mas agora todos sabemos porque é proibido contar histórias de fantasma nas reuniões na Mansão de Churumelle.

7 comentários:

Luiz Augusto disse...

Crack, nem pensar!

raquel alberti disse...

como já dizia o thi: quem precisa de drogas?...

estudioyabai disse...

ótimo!

=))

Záve disse...

@contratempos
Para rezar e macumba precisa-se saber o motivo ... ;-)

Anônimo disse...

Muito bom o seu blog. Tomei conhecimento dele após a polêmica envolvendo o "humorista" Danilo Gentili, vi um comentário seu em outro blog. Produzimos um vídeo como forma de protesto, favor! Se gostar divulgue. http://www.youtube.com/watch?v=t2WMSv0j84M

abraços

Gisa disse...

o feijão que a Glenda deixou na geladeira fermentou......ou o que andas comendo, será o meu maravilhoso sagu????

Gisa disse...

não esquece que Drácula (ou será que foi Frankenstein,..., não me lembro) foi escrito após uma indigestão monumental....