04 janeiro 2008

Toda arte é completamente inútil



“Toda arte é completamente inútil”, brada Oscar Wilde no prefácio de “O Retrato de Dorian Gray”. Eu digo que a arte e o objeto artístico tem uma única utilidade, a contemplação, e isso é uma das características que o definem como “arte”. Mas porque estou falando sobre isso? OK, OK, vamos começar do princípio.
Eu, como bacharel em arte e professor de desenho e pintura, tenho que ouvir quase todo dia perguntas do tipo “isso é arte?” e pessoas querendo me convencer que o freezer da Yopa é arte porque é bonito. Outro dia, um amigo meu afirmava que existem propagandas de TV que são arte, porque são bonitas e ‘enchem os olhos’. Então resolvi falar sobre uma das coisas que definem “o que é arte”. A sua inutilidade. Vejam bem que eu estou dizendo que é “uma das coisas que definem” e não “A definição”.
O que tinha na cabeça a pessoa que criou a figura no freezer da Yopa, ou a belíssima propaganda de TV? Vender um produto. A pessoa se utiliza de recursos visuais (muitos deles oriundos de conhecimentos artísticos) para seduzir o consumidor e fazê-lo comprar alguma coisa. E esse é o único objetivo de todo o trabalho. Não importa o quão belo ele seja, se o produto não tiver um aumento nas vendas, o trabalho foi mal feito. Isso é publicidade, é design ou qualquer outra coisa, mas com certeza não é arte. A arte não tem outro objetivo senão ela mesma, a arte não é utilitária.
A inutilidade inclusive já foi usada como recurso artístico. Vamos lembrar o famoso urinol do Duchamp, precursor da arte conceitual que introduziu a idéia de ready made na arte ao colocar objetos comuns (um urinol, uma pá, uma roda de bicicleta) como arte. Mas o que foi necessário que ele fizesse para que esses objetos utilitários se transformassem em obras de arte? Foi preciso que (entre outras coisas) ele retirasse dos objetos a sua funcionalidade. Em 1917, ele pegou um urinol comum de louça, assinou “R. Mutt” e datou “1917” e colocou-o como objeto artístico. No momento em que ele transformou o mictório em arte, ninguém mais poderia usá-lo para a sua finalidade, ou seja, urinar nele, e isso foi um fator importante para que o objeto fosse aceito (não no momento, mas posteriormente) como arte. E assim se constitui o ready made, muito popular no século XX, pegam-se objetos utilitários cotidianos e retira-os de de seu contexto, levando embora a sua funcionalidade e deixando apenas o objeto que existe senão para ele mesmo e para a contemplação.
O freezer da Yopa poderia vir a ser um objeto de arte? Sim, eu poderia fazer um ready made com ele. Mas com certeza ele não é arte cheio de sorvete e dentro de um bar na Lima e Silva. Ali ele está cumprindo a sua função de vender sorvete. A belíssima propaganda de TV poderia vir a se tornar arte? Sim, mas com certeza não é arte passando durante a novela das 8 com o objetivo prático de vender um produto.
Existem outros fatores que definem que o freezer e a propaganda não são arte? Com certeza. A unicidade da obra (só no caso freezer), a inserção no momento histórico-artístico (também conhecido por “isso não acrescenta nada ao universo da arte”) e outras coisas que eu até posso vir a falar em outros momentos.
Bjs
Até a próxima

10 comentários:

Diogo disse...

Legal, bitcho, bem explicado!

[DIOGO, ex-PoA, amigo do LUIZ]

Michael disse...

Pôôôô

thi.martini disse...

Parabéns, Rodrigo. Eu, como um "empregado" do mundo publicitário, (e fotógrafo e bacharel em arte e diretor audiovisual e etc...) já cansei de gastar o meu latim para convencer as pessoas de que design e publicidade são coisas completamente diferentes de arte. Nada impede que um ou outro façam referências explícitas ou bebam MUITO na fonte da arte, mas isso não os categorizam como objeto artístico. Umas das melhores coisas que li nos últimos tempos: "a arte se define (também) pela sua inutilidade."
Muito bom, parabéns. =)

Anônimo disse...

não entendi.

Luiz Augusto disse...

Nó, ducarái o texto, cê tem q dar uma palestra sobre esse assunto pq nunca vi ninguém com uma explicação tão boa antes.

raquel alberti disse...

bah, tivemos uma aula aqui SÓ sobre a inutilidade da arte. eu, q jah tinha lido teu texto aqui, ria por dentro da confusão q isso gera nas pessoas.
mandou muito bem, tio odigo!!!

Mário disse...

Cara... eu li e lembrei daquele momento na lima e silva o qual te indaguei isso. Depois desse texto eu entendi! Nem lembrava mais que era da yopa! Bom texto.

Mário

Marco disse...

Com todo respeito por seu bacharelado, a sua definição de arte é muito boa, no que toca a inutilidade da obra, mas a explicação a partir do dadaísmo de Duchamp não cabe, visto que não era essa a proposta do movimento, a proposta era a quebra da aura da arte, a retirada do valor, por vezes exagerado e mistificado da arte do tempo dele, e isso era feito transformando em arte (objeto místico na época) qualquer coisa, evidenciando essa supervalorização.

Rodrigo Chaves disse...

Marco, a tua explicação sobre o Dadaísmo é compatível com o que eu disse no texto. Dizes que "a proposta era a quebra da aura da arte, a retirada do valor, por vezes exagerado e mistificado da arte do tempo dele, e isso era feito transformando em arte (objeto místico na época) qualquer coisa, evidenciando essa supervalorização." E como era feita essa "transformação em arte"? Uma das coisas necessárias era a supressão da utilidade daquele objeto.

Anônimo disse...

Francamente, "a arte não é utilitária" é sinônimo de "a arte não é necessária". Afinal de contas, o que não tem utilidade, não tem propósito e, logo, não tem razão de existir.
Arte é bobagem.