02 outubro 2007

Um dia comum

Acordei hoje com um estranho sentimento de sonolência e um gosto metálico na boca. Era algo parecido com a sensação de recém ter acordado. Antes que eu me levantasse, a alma de um ateu veio falar comigo dizendo que não sabia se existia, pois, afinal, ele existir era contra as suas próprias crenças. Consultei rapidamente (dentro do que é possível fazer algo rapidamente às 6:30 da manhã) a minha agenda e vi que hoje não era dia de discutir ontologia. Expliquei para ele que a minha regra número 1 é: Ontologia somente aos domingos, durante os intervalos do Fantástico. Minha regra número dois é não fazer sexo com codornas, mas isso era irrelevante no momento. A alma disse que não tinha como voltar outra dia, pois estava com hora marcada no fisioterapeuta.
Levantei-me tentando ignorá-la, mas enquanto eu andava até a cozinha, a alma me seguia insistentemente. Enquanto botava água na chaleira para esquentar, expliquei para ela que a realidade é tudo o que é passível de verificação. Citei Descartes “Penso, logo existo” e ela foi embora ameaçando puxar meus pés de noite. Eu concordei que aparecesse, pois ninguém mais me fazia isso desde a minha última namorada, a Nietzscheana.
Ai, ai, Nietzscheana era uma pessoa especial. Como eu sinto falta de toda aquela agressão à razão, ao estado, à ciência e à organização social moderna que domesticam o homem, anulando seu instinto e criatividade... mas nós realmente forçamos a nossa relação em termos de unidade, e toda relação que se inter-relaciona consigo mesmo é fruto de conexões criadas por ela mesma ou por outra, ou seja, eu tive que pedir que ela raspasse o seu (dela, não o seu) buço avantajado e isso minou a nossa relação.
Sentei à mesa e fiquei pensando em Descartes. “Penso, logo existo”. Com certeza ele tinha problemas para combinar as meias. Servi o café com leite, passei manteiga no pão (pelo menos era o que os meus sentidos estavam dizendo que eu estava fazendo) e fiquei me divertindo com a idéia do filósofo com meias de diferentes cores (uma listrada fucsia e salmão e outra grená), até que me dei conta de que não sei que cor é “fucsia”, nem “salmão” e nem “grená”. Mas tais pensamentos não ficaram muito em minha cabeça, pois o telefone tocou. Era a Epifania.

Eu: Alô
Epifania: Alô? Aqui é a Epifania!
Eu: O que que manda, chefe?
Epifania: Alô?
Eu: Tá me ouvindo?
Epifania: Não tô te ouvindo!
Eu: Fala o que tu queres!
Epifania: Tá muito ruim a ligação, já te ligo.

Ela não voltou a telefonar.
Liguei o rádio e o Roberto Carlos começou a cantar.
Pelo menos a terça-feira começou melhor que a segunda.

5 comentários:

thi.martini disse...

clap clap clap!!!!

Luiz Augusto disse...

Que isso, a gandaia antes dessa manhã deve ter sido incrível!!! Conta aí! HEHE!

Muito ducarái o texto Aleja!

nem tão anônima assim disse...

Menino,depois desse eu quero bis.
Tem talento aí pra um livro inteiro.

raquel alberti disse...

curti muito!!!! :D

Um Cunhado disse...

Macho que é macho só enxerga 16 cores. E salmão é um peixe.