Ahã, ano novo, ortografia nova. A partir de 2009, estaremos vivendo uma reforma ortográfica (ou Rephorma Horthográphycae) na língua portuguesa, e a minha eloqüência virou eloquência. Eu queria que fizesse parte da reforma a substituição de todos os “s” por “f”, aí as pessoas passariam a falar que nem o Lula, mas o Senado barrou a minha proposta. Pena, mas isso nem foi o que mais me chateou, o que mais me incomoda é a completa extinção da trema. Não sei se vou agüentar viver sem ela, ou, pela nova ortografia, aguentar. As palavras eram muito mais fortes com trema. Já imaginei um novo papo pelo Brasil afora.
- Tá escrito aqui: “Pedro executou o sequestro de Sagui.”
- Como assim? Todo esse auê por causa de um sequestrinho?
- É o que diz na manchete, mas lendo o texto, a gente vê que foi um “seqüestro”, mesmo.
- Com trema e tudo?
- Ahã.
- Sempre soube que o Pedrão era um delinquente com trema, sabe, das antigas.
- Pois é, eu também sempre soube. Minha mãe que achava o Pedrão tranquilo, sabe, sem trema, coitada da velha, nunca imaginou que ele ia acabar assim.
- O problema é que essa vida de crime tem consequencia. E a consequencia para o Pedrão foi daquelas, com trema e tudo.
- E pobre do Sagui, também, só porque se deu bem na vida.
- É, se deu bem até por aí. O Sagui era irmão do Pinguim, o Pedrão tinha que saber que eles não tinham mais trema faz um tempo, sabe...
Outra coisa que me incomoda é o “voo”, sem acento. Me recuso a voar sem acento. Já me imaginei pegando um avião no dia primeiro de janeiro de 2009 e o comandante dizendo:
“Atenção passageiros, a partir de hoje esse voo é sem acento.”
Essa declaração será seguida de cenas da mais completa revolta dos passageiros, resultando na queda do avião.
Não sei quanto a vocês, mas eu me sentia muito mais civilizado voando com acento e usando trema. Já me conformei que eu serei que nem aqueles velhos que escrevem com “ph”, sabe. Já consigo imaginar os meus netos falando “Olha que engraçado, o vô Rodrigo escreve com trema”. Tentarei me adaptar à nova ortografia a partir de 2009, embora considere isso um retorno a barbárie. E as pessoas ainda me perguntam porque eu faço tiras sem texto... Pelo menos minhas tiras não passarão a estar em um português arcaico nesse primeiro de Janeiro.




